Nota do Diretor sobre “Chacal: Proibido Fazer Poesia”

Chacal, Cinema, Diretor, Ensaio, Filmes, Literatura

 

Por Rodrigo Lopes de Barros

(Publicado em Revista Pessoa, 30 de outubro de 2015. http://goo.gl/wruRz2)

Arrisco dizer: um filme de abordagem quase ficto-etnográfica. Se, como colocaria Jean Rouch, é bem possível que os africanos ao realizarem seus filmes vejam outra Paris (bem como os europeus certamente registraram Áfricas distintas das que experimentavam os seus habitantes, digamos, nativos), o que então pode alguém como eu – desenvolvido pelas margens do establishment cultural brasileiro, como um outsider – ver de um movimento literário da Zona Sul do Rio de Janeiro dos anos 1970? Um tempo-espaço que, obviamente, só pode me causar fascínio pela distância, exotismo e alteridade pela maneira que a mim se apresenta, e simpatia pela audácia de se proclamar “marginal”, quando o mais fácil seria seguir o rastro de movimentos e pessoas que hoje estão institucionalizados como alta cultura.

Não me restou saída a não ser trabalhar com esse paradoxo de uma tradição que me é ao mesmo tempo existente e alheia. Chacal: Proibido fazer poesia foi a possibilidade de imersão em questões político-estéticas ainda latentes de como abordar uma certa memória cultural que não está nem totalmente dentro nem completamente fora do que é o “Brasil” predominante ou do que sou eu mesmo – alguém impossibilitado por questões estruturais de possuir qualquer sentimento mais forte de pertencimento ou identificação com esse país e que tampouco pode se desvencilhar completamente dele. 

Por isso, utilizo-me nesse filme muito dos métodos de remix, desvio, deriva. Isto é, acoplar a realização cinematográfica (um de meus meios de expressão artística) à crítica cultural. O desejo de ser escritor da montagem, apropriação e ressignificação da tradição brasileira, e latino-americana, para apanhar um pensamento de Borges, pareceu encontrar vazão no documentário poético. Isso se exemplifica em dois momentos do filme nos quais há reaproveitamento de arquivo. Primeiro, na inserção do videoclipe “Andréia Androide” de Roberto Berliner, Sandra Kogut e Eder Santos. Aquela peça audiovisual dos anos 1980 recebe outra trilha sonora em Proibido fazer poesia, composta à encomenda por João Pedro Garcia: muito mais agressiva e acelerada. As imagens em si revelam-se na tela multiplicadas por três – recurso também adotado em outros momentos do filme – passando em tempo simultâneo, o que triplica os cortes e, portanto, a sua velocidade. Eleva e explicita o caos informático que se iniciava nos 80, da passagem do mimeógrafo ao computador pessoal, do papel ao vídeo, da voz ao sintetizador, e ainda atualiza-o no instante em que acontece possivelmente o cume de uma internet ainda mediada pelos sentidos: a primeira quarta parte do século XXI.

A segunda instância, e talvez onde esteja mais manifesto o intuito de produzir crítica, está no encontro entre Chacal e Augusto de Campos propiciado pela montagem. Cada poeta é possuidor de um respectivo, emblemático, poema chamado “Cidade”. No instante em que Chacal testemunha acerca do papel que a ditadura (indiretamente) desempenhou na relação entre poesia concreta e poesia marginal, escuta-se como pano de fundo a música/vocalização de Augusto em parceria com seu filho Cid Campos. Cid coloca a voz do pai num sampler e a repete em tão alta frequência que a palavra “Cidade”, título do poema, se transforma em nota única, bordão. Ele então começa a diminuir a velocidade da repetição, e, pouco a pouco, o vocábulo começa a se formar: “C, Ci, Ci, Ci, Cid, Cid, Cid, Cida, Cida, Cidad…”. Quando Augusto está prestes a pronunciar toda a palavra, interrompemos sua voz para que Chacal entre com a dele, ocupe o espaço sonoro,  e complete o poema com seus próprios versos. Esse elemento de crítica lítero-cultural foi também troca, debate, conversa com o produtor Guilherme Trielli Ribeiro que, com sua experiência referente à poesia brasileira do século XX, contribuiu para a elevação do filme a tal diálogo.

Esse diálogo entre os realizadores, o performer e o arquivo, com sorte, afastou o clichê de um simples retrato didático, (auto)biográfico, em linguagem cinematográfica para dar lugar à possibilidade de uma obra que postule uma leitura de seminal e ainda insuficientemente analisado momento político-histórico do país. Nesse sentido, o Super 8 – como meio de captação principal adotado no filme para as novas imagens de 2014 – não foi escolhido apenas para propiciar qualidade nostálgica, remetendo a imaginação à virada dos anos 1970/80, às aventuras cinematográficas anteriores do próprio Chacal (por exemplo, Chacal é o Juiz, OK X KO); mas também por ser o Super 8 meio que, revisitado por cineastas digitais, força o experimento das “próteses de percepção” (Buck-Morss) características daquele próprio momento político-histórico.

A utilização de tecnologias (essas próteses dos sentidos) arcaicas e fora de uso/moda no instante-agora é arma de realização do transe estético-político contra a velocidade de transformação empreendida por essa última fase do capitalismo: velocidade de transformação que dificulta nossa possibilidade empática com gerações de um passado extraordinariamente recente. O Super 8 nos ofereceu potencialmente acesso à precariedade da Geração Mimeógrafo por meio de suas imperfeições analógicas, ranhuras e danos inevitáveis provindos do manuseio da película, e vazamentos de luz e instabilidade da imagem provocados pela pouca precisão técnica das câmeras. Ao mesmo tempo, ele nos exigiu uma disciplina estoica no manejo da limitação financeiro-temporal de cartuchos com apenas 15 metros de filme. Nos fez compreender virtualmente a necessidade marginal de nos mostrarmos decisivos no registro do que se vê através do viewfinder ou do que se coloca no papel, ou para utilizar das palavras do próprio Chacal, o porquê do dever de ser rápido e rasteiro quando não se tem disponível os recursos mandatórios à realização do grandioso: a utopia na falta. Aqui, então, a estética buscada pela montagem de Proibido fazer poesia nos remete ao videoclipe (esse fenômeno que Caetano Veloso bem definiu como desdobramento lógico do primeiro cinema de vanguarda) não apenas porque está conectado com a própria vida/poética de Chacal (homem do rock) – o que seria conclusão fácil – mas também por minha própria relação intelectual com o cinema cubano dos anos 1960. Veja-se Now de Santiago Álvarez, com sua montagem dita “nervosa”, que ao invés de ocultar por meio da técnica a precariedade das condições existentes, catapulta-se desde a falta como próprio motor criativo: filme feito de colagens, restos de outros filmes, sobras sonoras e, principalmente, improvisação. Essa característica daquele tipo de cinema, de um cinema improvisado que se resolve no corte e montagem, foi a buscada. Proibido fazer poesia é também jam session entre os realizadores e o poeta. A câmera busca o momento, ao contrário de um momento que se constrói para a câmera. Assim, é cine-transe de Rouch, ou cine-prótese de Buck-Morss, visto que me pretendi ser biônico, mediando minha relação com Chacal através da audição eletrônica, ou de olhos virtualizados no ground glass da Super 8.      

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